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O brasileiro é cordial ou é apenas um mito?

Há 87 anos, o debate sobre a cordialidade do povo brasileiro ganhou força com a publicação de Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda. Desde então, o termo “homem cordial” passou a ser amplamente associado à ideia de um povo simpático, acolhedor e pacífico. No entanto, essa leitura se distancia do que o autor realmente propunha: a cordialidade brasileira não era sinônimo de gentileza, mas sim da prevalência de laços afetivos e relações pessoais nas esferas públicas, em detrimento das instituições e das normas impessoais.

Com o tempo, essa noção foi sendo simplificada até se tornar um mito nacional, frequentemente repetido como traço essencial da nossa identidade. No entanto, basta observar a realidade social e política brasileira para perceber o quanto esse imaginário está em desacordo com os fatos. Vivemos em um país marcado por uma profunda intolerância — religiosa, racial, de gênero, política —, onde o discurso de ódio circula com força em ambientes públicos e privados.

A figura do brasileiro cordial contrasta com atitudes que vão desde ofensas nas redes sociais até a violência cotidiana contra minorias. A mesma sociedade que se orgulha de sua hospitalidade é aquela em que pessoas negras continuam sendo alvos de violência policial, em que mulheres são silenciadas ou violentadas diariamente, em que a população LGBTQIA+ é marginalizada e atacada por simplesmente existir. A cordialidade, nesse contexto, parece não passar de uma construção conveniente — seletiva, superficial e facilmente mobilizada como escudo para práticas autoritárias.

A contradição se acentua quando aqueles que se apresentam como representantes da moral, da fé ou da tradição se colocam como exemplos de retidão, ao mesmo tempo em que reproduzem discursos de ódio. A suposta cordialidade se desfaz nas entrelinhas de falas agressivas, ações excludentes e no desprezo às diferenças. O que se vê, na verdade, é uma emoção dirigida, não à empatia, mas à hostilidade — travestida de valores familiares ou cívicos.

Assim, a imagem do brasileiro cordial revela-se menos como um traço genuíno do povo e mais como um mito persistente, capaz de mascarar as desigualdades e tensões que atravessam a sociedade. Um mito confortável, mas perigoso, justamente por desviar o olhar daquilo que realmente define as relações sociais no país: a desigualdade, a violência simbólica e a dificuldade em lidar com a diferença.