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O dia em que eu não morri

O medo universal

Desde pequenos, somos ensinados a temer a morte — a nossa, a dos outros, a de tudo que amamos. Esse medo acaba moldando nossas decisões, nossos relacionamentos e até os nossos sonhos. E isso é totalmente compreensível. Arrisco dizer que esse receio nasce, em grande parte, da infinidade de possibilidades sobre o que vem depois — são milhares de religiões e crenças tentando explicar o que acontece após o fim. E a verdade é que nunca teremos uma resposta definitiva, apenas a fé em um desfecho que nos consola e, de alguma forma, nos agrada.

A experiência

Por muito tempo, eu também vivi com esse medo. Ele estava em tudo — nas escolhas que eu adiava, nas relações que eu evitava, no cuidado excessivo em cada passo. Até que, em 2020, esse medo bateu na minha porta de forma concreta, física e inevitável. E tudo mudou.

No início da pandemia, fiquei muito doente. Ninguém sabia ao certo o que era. Os médicos evitavam me atender com receio de que eu estivesse com covid — o que, olhando hoje, parece absurdo. O medo deles de se contaminarem era maior do que o juramento que um dia fizeram.

Passei um mês acamada, sem conseguir comer, tomar banho ou fazer o mínimo para cuidar de mim mesma. Minha família entrou em desespero. Só depois de muitas tentativas, um médico decidiu me acolher. Fizemos diversos exames, mas nada explicava o que estava acontecendo. Até que, com a saturação baixíssima, fui internada às pressas.

No fundo, eu já sabia que era covid. Mas não imaginava que poderia piorar. Veio então o diagnóstico: mononucleose — a famosa "doença do beijo" (e eu juro que não beijei ninguém na pandemia!). Na mesma semana, um menino de 7 anos faleceu pela mesma causa. Foi ali que caiu a ficha: talvez eu fosse a próxima.

Eu respirava apenas com auxílio de cateter e tinha cerca de 20% das vias aéreas livres. Os médicos e enfermeiros tentavam me manter calma, mas no olhar deles havia uma despedida silenciosa. O mais curioso? Em nenhum momento senti pânico.

Senti paz. Uma paz profunda diante da possibilidade da morte.

O depois

Sempre tive muito medo da morte — um medo que me paralisava e me impedia de viver plenamente. Acho que esse medo ganhou força especialmente na época em que eu era mais envolvida com a religiosidade, por motivos muito pessoais que não vêm ao caso agora.

Mas depois dessa experiência, algo em mim se transformou. Nunca mais senti o mesmo medo. Isso não significa que passei a viver como se nada importasse. Não saio por aí me arriscando. Mas também não deixo de viver por causa do medo do desconhecido. E, pra mim, isso já é um ganho imenso.

A verdade é que, depois de quase morrer, a gente passa a valorizar mais o que realmente importa: o tempo, a família, os amigos. Coisas óbvias, eu sei — mas que a gente insiste em esquecer no dia a dia. E sim, eu ainda desperdiço meu tempo com coisas que não valem a pena. Isso é uma autocrítica, e das boas.

Reflexão

Passar por uma experiência de quase morte é como atravessar uma porta que não se pode mais fechar. Não se trata apenas de sobreviver fisicamente, mas de retornar à vida com um novo olhar — como se algo dentro de você tivesse morrido para dar espaço a algo mais verdadeiro.

Na psicologia, existe o conceito de “morte do ego”, que não tem a ver com o fim da vida, mas com o fim das ilusões que sustentamos: controle, invencibilidade, vaidade. Quando o ego silencia — seja por trauma, crise ou milagre — o que sobra é o essencial. E o essencial é mais leve. É o que permanece quando tudo parece ruir.

Alguns chamam isso de renascimento. Outros, de segunda vida. Eu não sei se tive uma segunda vida no sentido literal, mas com certeza passei a viver de outro jeito. Depois de encarar a morte de perto, a vida ganhou um valor diferente. Paradoxalmente, foi ao me despedir dela que aprendi a habitá-la com mais presença.

A liberdade que veio depois não foi sobre fazer tudo o que eu quiser, mas sobre não viver mais em função do medo — especialmente do medo do fim. E quando a gente perde o medo da morte, muita coisa perde o poder de nos controlar: a opinião dos outros, o tempo que escorre, o desejo de agradar o mundo inteiro.

A vida continua sendo frágil, incerta e, muitas vezes, injusta. Mas depois do que vivi, entendi que o verdadeiro milagre é acordar todos os dias com a chance de fazer diferente. E isso, por si só, já vale mais do que qualquer certeza sobre o que vem depois.

Não estou dizendo que não tenho mais medo nenhum. Mas hoje sei que não estou aqui por acaso. E viver com essa consciência — do fim — é o que me trouxe, ironicamente, paz para continuar.