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Tudo o que sei sobre o amor… depois de ler Dolly Alderton

Antes de ler Dolly Alderton, eu achava que sabia algumas coisas sobre o amor. Mas o que eu sabia, na verdade, era o que aprendi assistindo comédias românticas, ouvindo conselhos aleatórios e me enfiando em relações pelas razões erradas.

Dolly não me ensinou o que é o amor — ela me ensinou a desaprender. E eu espero que, a partir deste texto, você possa desaprender comigo também.

O amor como fuga

Acho que muitos já se identificaram com a sensação de conseguir expressar a própria tristeza apenas para estranhos — como se fosse mais fácil falar com quem não nos conhece. Isso acontece, muitas vezes, porque temos medo de incomodar quem amamos. Tentamos nos moldar para caber na vida do outro, e isso inclui esconder partes de nós que julgamos frágeis demais.

Existe uma ligação direta entre esse esforço de esconder a dor e a tentativa constante de sermos perfeitos. Vivemos em uma cultura que nos ensina a ver a tristeza como fraqueza — algo a ser disfarçado. Mas a dor faz parte da nossa existência como seres imperfeitos e perdidos.

E é aí que o amor entra — ou melhor, a ideia de amor que muitas vezes construímos: uma fantasia onde tudo se resolve, onde podemos nos esconder de nós mesmas. Mas, ao usar o amor como fuga, acabamos nos perdendo ainda mais.

Amor e autoestima: entre o olhar do outro e o espelho

Por muito tempo, acreditei que o amor vinha do outro. Que eu precisava ser interessante o suficiente, bonita o suficiente, desejável o suficiente para merecê-lo. E, quanto mais tentava me encaixar nesse molde imaginário, mais longe eu ficava de mim. Como se, na tentativa de ser amada, eu deixasse de existir.

Dolly escreve: “Quando vivemos envergonhados do nosso comportamento, passamos a não nos levar a sério e nossa autoestima vai ficando cada vez mais baixa.” E eu senti essa frase como um espelho. Porque é exatamente isso: quando nos olhamos com vergonha, sem gentileza, sem paciência, como esperar que o outro faça diferente?

A verdade é que o amor que recebemos costuma ser o reflexo do amor que oferecemos a nós mesmas. Quando a gente se trata com pressa, com culpa ou com desdém, o mundo nos devolve isso em forma de relações rasas, instáveis, ou até cruéis.

Por isso hoje tento lembrar que não preciso fugir do que me incomoda nem buscar abrigo no olhar masculino — ou em qualquer outra validação externa. Porque eu me expresso melhor de outras formas. E, mesmo tropeçando em inseguranças antigas, aprendi que posso me olhar com mais compaixão. Como diz Dolly: "Eu sou mais do que o bastante. Acho que chamam isso de epifania."

O amor que sobra: amizade, corpo e liberdade

Hoje percebo que, para muita gente, o amor ainda é visto apenas como algo romântico. Mas, se olharmos com atenção, vamos enxergar muitos outros tipos de amor ao nosso redor — e, muitas vezes, mais sinceros.

Minhas amizades com outras mulheres me mostraram o que é o amor de verdade. Relações cuidadosas, generosas, mas também exaustivas. Porque amar exige esforço. Não é só um sentimento — é uma escolha diária. Amar é se entregar, se perdoar e perdoar o outro. É uma mistura de muitos verbos acontecendo ao mesmo tempo.

E amar o próprio corpo também é essencial. A liberdade de sermos quem somos começa por ele — pelo modo como cuidamos, respeitamos e habitamos esse corpo, sem ceder ao que nos dizem que ele deveria ser.

Nem todo amor precisa ser romântico. Existe amor nas amizades, no silêncio confortável entre duas pessoas, na autonomia de dizer “não”, e até no espelho, quando nos olhamos com gentileza. E, no fim, é esse tipo de amor — o que não cobra, não sufoca, e não exige que deixemos de ser quem somos — que muitas vezes nos salva quando o amor romântico falha.

Términos e recomeços: o amor como um caminho de volta para casa

Com o tempo, entendi que um término nem sempre significa perder uma pessoa — às vezes, é perder a vida que construímos ao lado dela. Isso assusta. Porque, quando se é jovem, você perde um namorado. Mas, mais velha, perde planos, rotinas, até a identidade construída junto.

E, por medo de perder tudo isso, a gente fica. Fica em relações que já não fazem sentido. Fica porque tem uma viagem marcada, um contrato assinado, porque os amigos já conhecem o casal. Como se compromissos justificassem o sufoco de continuar onde não se sente mais amada.

Mas Dolly lembra: “Viagens podem ser canceladas. Casamentos podem ser suspensos. Casas podem ser vendidas.” E isso me ensinou que o que parece prático demais para ser abandonado, muitas vezes é só medo disfarçado de maturidade.

No fim, amar também é saber parar. Aceitar que algumas histórias acabam para que possamos recomeçar — não do zero, mas de um ponto mais próximo de nós mesmas. Porque, quando o amor deixa de ser prisão e vira liberdade, ele nos empurra de volta pra casa. E por “casa”, quero dizer esse lugar íntimo e silencioso onde não precisamos pedir licença para existir.

Hoje, tudo o que sei sobre o amor é que ele não precisa ser eterno para ser verdadeiro. Que às vezes ele está nas despedidas sinceras, e não nos reencontros forçados. Que ele não é o destino final — mas o caminho. E que, se for amor de verdade, ele sempre nos leva de volta pra dentro.